segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O homem que era meu pai



Ele era um homem matuto, sem muita instrução, vindo do interior no Piauí
Lembrei desse homem vendo o filme do Gonzaga, seu ídolo
Lembro que no último ano da sua vida ele acabará de comprar um DVD com o especial do Rei do Baião.
Todos os sábados eu ia visita-lo na sua taberna e lá estava ele, ouvindo o xote arrochado o Gonzagão.
Desde da infância o via com a vitrola ligada, deixando rodar um bolachão com um forró das antigas, as letras falando das tristezas e alegrias de um velho sertanejo.
Mas só no último ano de convivência com meu Pai que fui questionar o porquê do seu ídolo ser o Gonzagão. Sentada numa cadeira de macarrão verde, ficava ali escondida atrás do balcão da taberna observando meu pai contar as piadas e a história do Gonzagão, foi quando caiu a ficha.
Ele o admirava porque contava e cantava suas histórias também, havia identificação direta, o migrante, um amor perdido, a fome, o sertão, o rigor do pai.
 Assistindo o filme também lembrei de quanto era complicada a nossa relação, aquele pai que não registrou a filha, aquele pai que traiu a mãe com outra, aquele pai que achava que criar era simplesmente colocar comida na mesa, vi no Gonzaguinha um pouco da minha magoa.
Não havia briga entre eu e ele, mas havia distância, por tantas vezes passamos horas no mesmo lugar, mas sem trocar um palavra, as vezes só o pedido de benção tradicional e rotineiro.
Com o tempo descobri o quanto era difícil dizer realmente o que sentia por ele, alguns dias senti raiva, outras o admirava pela sua luta como pessoa, pois uma coisa não posso negar, ele era trabalhador, todo dia era dia de trabalhar, já foi lavrador, vendedor de pão em porta e porta, dono de taberna, aquelas só pra “bebum” mesmo, vigia e por aí vai...
Era muito orgulhosa para dizer que o amava e ele era muito orgulhoso para tentar descobri o que eu era, nunca conversamos coisas muitos pessoais, nunca perguntou qual era meu sonho, o que eu gostava... Isso era intimidade demais. Mas gostava quando ele dava aquela olhada com orgulho, quando passava de ano, quando me destacava em algo e no último ano de vida, vi que ele se orgulhou por causa do meu primeiro emprego com carteira assinada, falava para os amigos que a caçula já estava trabalhando.
Vendo filme me deu certo incomodo não ter dado um abraço de perdão, não ter tido mais maturidade e com isso me permitir falar mais de mim, mesmo sem ele perguntar, ter deixando a gente se conhecer mais. Ele me ensinou isso, como uma “última lição”, não guardar mágoas e aproveitar as pessoas permitir sempre colocar as cartas na mesa e ser feliz, porque, depois que ele se foi fiquei me questionando: Pra que toda aquela angustia, pra que o orgulho, agora ele se foi e eu não tenho mais o que mostrar o que birrar... Não ia adiantar nada.
O homem que era meu pai, foi um homem que errou, mas foi um homem que ensinou, foi um homem com o sorriso aberto, foi um homem que tentou ser um pai, tentou demonstra seu amor.  
   

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