Ele era um homem matuto, sem muita
instrução, vindo do interior no Piauí
Lembrei desse homem vendo o filme do
Gonzaga, seu ídolo
Lembro que no último ano da sua vida ele
acabará de comprar um DVD com o especial do Rei do Baião.
Todos os sábados eu ia visita-lo na sua
taberna e lá estava ele, ouvindo o xote arrochado o Gonzagão.
Desde da infância o via com a vitrola
ligada, deixando rodar um bolachão com um forró das antigas, as letras falando
das tristezas e alegrias de um velho sertanejo.
Mas só no último ano de convivência com
meu Pai que fui questionar o porquê do seu ídolo ser o Gonzagão. Sentada numa
cadeira de macarrão verde, ficava ali escondida atrás do balcão da taberna
observando meu pai contar as piadas e a história do Gonzagão, foi quando caiu a
ficha.
Ele o admirava porque contava e cantava
suas histórias também, havia identificação direta, o migrante, um amor perdido,
a fome, o sertão, o rigor do pai.
Assistindo o filme também lembrei de quanto
era complicada a nossa relação, aquele pai que não registrou a filha, aquele
pai que traiu a mãe com outra, aquele pai que achava que criar era simplesmente
colocar comida na mesa, vi no Gonzaguinha um pouco da minha magoa.
Não havia briga entre eu e ele, mas havia
distância, por tantas vezes passamos horas no mesmo lugar, mas sem trocar um
palavra, as vezes só o pedido de benção tradicional e rotineiro.
Com o tempo descobri o quanto era difícil
dizer realmente o que sentia por ele, alguns dias senti raiva, outras o
admirava pela sua luta como pessoa, pois uma coisa não posso negar, ele era
trabalhador, todo dia era dia de trabalhar, já foi lavrador, vendedor de pão em
porta e porta, dono de taberna, aquelas só pra “bebum” mesmo, vigia e por aí
vai...
Era muito orgulhosa para dizer que o
amava e ele era muito orgulhoso para tentar descobri o que eu era, nunca conversamos
coisas muitos pessoais, nunca perguntou qual era meu sonho, o que eu gostava...
Isso era intimidade demais. Mas gostava quando ele dava aquela olhada com
orgulho, quando passava de ano, quando me destacava em algo e no último ano de
vida, vi que ele se orgulhou por causa do meu primeiro emprego com carteira
assinada, falava para os amigos que a caçula já estava trabalhando.
Vendo filme me deu certo incomodo não ter
dado um abraço de perdão, não ter tido mais maturidade e com isso me permitir
falar mais de mim, mesmo sem ele perguntar, ter deixando a gente se conhecer mais.
Ele me ensinou isso, como uma “última lição”, não guardar mágoas e aproveitar
as pessoas permitir sempre colocar as cartas na mesa e ser feliz, porque,
depois que ele se foi fiquei me questionando: Pra que toda aquela angustia, pra
que o orgulho, agora ele se foi e eu não tenho mais o que mostrar o que birrar...
Não ia adiantar nada.
O homem que era meu pai, foi um homem que
errou, mas foi um homem que ensinou, foi um homem com o sorriso aberto, foi um
homem que tentou ser um pai, tentou demonstra seu amor.

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