sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Realmente, Eu quero!




Conheci um homem, que parecia ter poucas palavras a oferecer.
Conheci há pouco tempo, mas como aquelas velhas historias de romances, parece que temos anos de convivência.
Esse homem não tem vergonha de querer se prender, não tem medo de se entregar.
Sim, buscava um alguém que o fizesse parar, parar e observar, olhar sem pensar no tempo, apenas olhar, admirar.
Seus olhos brilham e se encantam com cada gesto que ele descobre, ali, diante dos seus olhos.
Conheci debaixo de uma chuva, fina, que fazia a cidade ter um tom mais nostálgico, eu sempre sei o que falar quando conheço uma pessoa, mas nesse dia não fiz questão de saber o que falar. O jovem homem falava sem medo de ser precipitado, sem medo de parecer um menino que acabará de realizar um sonho, acabará de encontrar algo que o fascinava.
Sim, ele baixa o rosto e escuta, parece que saboreia cada palavra, quem diria eu, fiquei ali, observando  E o que ele quer? Sem mistérios ele fala, o que quer como quer, tem suas certezas, tem seu foco.
E eu curiosa, quero continuar conhecendo esse homem, que aos poucos conquista, é um sorriso desprendido, é um afago na hora certa. Sei o risco que tenho de me prender tanto como ele quer se prender. Sei que posso ficar dias e meses ouvindo os seus desejos, seus planos... E o risco que tenho? É o simples desejo de ser sim, esse desejo, esse plano, esse sonho! Pois usando as palavras desse homem... Realmente, Eu quero!

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O homem que era meu pai



Ele era um homem matuto, sem muita instrução, vindo do interior no Piauí
Lembrei desse homem vendo o filme do Gonzaga, seu ídolo
Lembro que no último ano da sua vida ele acabará de comprar um DVD com o especial do Rei do Baião.
Todos os sábados eu ia visita-lo na sua taberna e lá estava ele, ouvindo o xote arrochado o Gonzagão.
Desde da infância o via com a vitrola ligada, deixando rodar um bolachão com um forró das antigas, as letras falando das tristezas e alegrias de um velho sertanejo.
Mas só no último ano de convivência com meu Pai que fui questionar o porquê do seu ídolo ser o Gonzagão. Sentada numa cadeira de macarrão verde, ficava ali escondida atrás do balcão da taberna observando meu pai contar as piadas e a história do Gonzagão, foi quando caiu a ficha.
Ele o admirava porque contava e cantava suas histórias também, havia identificação direta, o migrante, um amor perdido, a fome, o sertão, o rigor do pai.
 Assistindo o filme também lembrei de quanto era complicada a nossa relação, aquele pai que não registrou a filha, aquele pai que traiu a mãe com outra, aquele pai que achava que criar era simplesmente colocar comida na mesa, vi no Gonzaguinha um pouco da minha magoa.
Não havia briga entre eu e ele, mas havia distância, por tantas vezes passamos horas no mesmo lugar, mas sem trocar um palavra, as vezes só o pedido de benção tradicional e rotineiro.
Com o tempo descobri o quanto era difícil dizer realmente o que sentia por ele, alguns dias senti raiva, outras o admirava pela sua luta como pessoa, pois uma coisa não posso negar, ele era trabalhador, todo dia era dia de trabalhar, já foi lavrador, vendedor de pão em porta e porta, dono de taberna, aquelas só pra “bebum” mesmo, vigia e por aí vai...
Era muito orgulhosa para dizer que o amava e ele era muito orgulhoso para tentar descobri o que eu era, nunca conversamos coisas muitos pessoais, nunca perguntou qual era meu sonho, o que eu gostava... Isso era intimidade demais. Mas gostava quando ele dava aquela olhada com orgulho, quando passava de ano, quando me destacava em algo e no último ano de vida, vi que ele se orgulhou por causa do meu primeiro emprego com carteira assinada, falava para os amigos que a caçula já estava trabalhando.
Vendo filme me deu certo incomodo não ter dado um abraço de perdão, não ter tido mais maturidade e com isso me permitir falar mais de mim, mesmo sem ele perguntar, ter deixando a gente se conhecer mais. Ele me ensinou isso, como uma “última lição”, não guardar mágoas e aproveitar as pessoas permitir sempre colocar as cartas na mesa e ser feliz, porque, depois que ele se foi fiquei me questionando: Pra que toda aquela angustia, pra que o orgulho, agora ele se foi e eu não tenho mais o que mostrar o que birrar... Não ia adiantar nada.
O homem que era meu pai, foi um homem que errou, mas foi um homem que ensinou, foi um homem com o sorriso aberto, foi um homem que tentou ser um pai, tentou demonstra seu amor.